20060129 |
saudades. não passas de uma memória distante. já me esqueci do teu nome, mas ainda consigo recordar as tuas formas, os teus traços, a tua cara, o teu sorriso. porém, perdeste-te no turbilhão que me envolveu e me arrastou para este buraco escuro e lúgubre. conseguiste sair a tempo da teia que nos envolvia, e pudeste prosseguir com a tua vida. fomos separados pelas circunstâncias, meu amor, e presos em celas diferentes, se bem que a tua não tem grades, nem fechaduras, nem guardas. se me deixassem sair daqui, talvez pudesse consertar tudo, salvar-te do teu cárcere e relembrar e reviver os momentos que passámos juntos. mas tudo isso não passa de um sonho. nunca mais te verei, por muito que o queira, porque nunca serás autorizada a vir até mim. ninguém o deixará. a única companhia que me deixam ter é a da campaniça. todos nos temem... todos nos temem juntos. por isso nos isolaram. mas, nem que depois de morto, eles pagarão por tudo. e aí... talvez aí... estejamos juntos novamente.
rabiscado na parede, ao lado de outros 3 gatafunhos. |
20060125 |
solitária. isolaram-me. ainda mais. já não bastava estar sozinho numa ala, agora estou numa solitária. diminuíram-me o espaço habitacional e retiraram-me a minha única ligação ao mundo exterior (a janelinha minúscula que dava para fora da prisão). talvez lá volte um dia, áquele buraco ao qual já me acostumara a chamar "casa"... como tudo muda. como os homens tudo mudam.
rabiscado na parede, ao lado de outros 2 gatafunhos.mas o facto é que muita coisa mudou. desde o meu último ataque, tenho recebido medicação para não voltar a perder o controle. toco na viola campaniça para deixar passar o tempo... mas neste momento, perdi completamente a noção do tempo. não me deixam sair para o exterior, dizem que sou demasiado perigoso. pergunto porquê, viram costas; insisto, ameaçam-me com o cassetete. acho que já se evaporou das mentes de todos o que eu fiz para estar aqui, o delito que eu cometi... até eu já nem me lembro. mas estou a pagar por ele... isso é um facto. por isso não largo a viola, a minha manazinha. a minha única companheira nesta solitária. |
20060119 |
demência. é impressão minha ou as paredes estão a aproximar-se? não sei, quanto mais olho, parece que estão em movimento... esfrego os olhos, olho novamente e reparo que não estou rodeado de paredes, mas tão-só o gradeamento de sempre. acho que estou a perder a razão. ouço vozes a falar comigo, mas não vejo ninguém. onde estão? eu sei que vocês estão aí! saiam daqui! deixem-me em paz!! desapareçam!! mas porque vos digo para desaparecerem, afinal de contas, vocês nunca aparecem... passo nisto todo o dia. se é que é um dia... já perdi totalmente a noção do tempo. tanto pode ser segunda como sábado, já não sei. nem sei que ano é. ninguém me dá nada. adorava ter uma pedra, ou algo que me desse para partir o vidro desta janelinha para abrir um pulso e ver o sangue a correr... talvez morresse finalmente... talvez tivesse tinta para escrever... tiraram-me as canetas, sabem? acharam que eu era capaz de enfiar uma na garganta para ver o que acontecia... ou de me tentar matar com ela... tentar matar-me com uma caneta, ouviram? como se isso fosse humanamente possível... não se riam, eu sei que não me ia matar! por muito que o queira... não o ia fazer com uma caneta! eu não me quero matar, ouviram! eu não quero! eu não quero! eu não...
rabiscado na parede, ao lado de outros 0 gatafunhos.os passarinhos soam lá fora. felizes são eles... |
20060117 |
devaneio. começo a perder a noção do local aonde estou. fecharam-me numa prisão ou num hospício? prenderam o meu corpo ou a minha mente? pergunto aos meus companheiros, mas ninguém me responde. mais uma vez. pela centésima vez me lembro que não tenho companheiros, ninguém preso nas celas ao lado da minha, ou no mesmo sector. se não fosse pelo guarda que me traz comida, diria que se tinham esquecido de mim. que me haviam encerrado ali para morrer, longe de tudo, abandonado por todos, esquecido pelo mundo. grito, blasfemo, reclamo contra tudo e contra todos, contra o mundo que me prendeu e que para mim, agora, é apenas uma recordação distante. o meu mundo reduziu-se a trinta e cinco metros quadrados de cimento...
rabiscado na parede, ao lado de outros 0 gatafunhos.acabou-se a tinta da minha caneta. tentei chamar o guarda para lhe pedir uma nova, mas, como de costume, ninguém me ouviu. tive de fazer um corte no dedo e escrever com o sangue daí resultante. heh... cada um tem de se desenrascar como pode. até mesmo quando somos esquecidos. já nem as fotos de vernazza conseguem capturar o meu olhar... |
20060115 |
insónia. dou voltas e voltas, sem conseguir conciliar o sono. por mais que tente, nem o facto de estar só me alivia a consciência e me deixa dormir. sofro, noite e dia, dia após dia, neste recanto escuro e frio, que me atormenta e me derrota. começo a esquecer-me de quem sou, do que fiz para estar fechado longe do mundo, e dou por mim a olhar para espelho sujo e de cantos partidos, a tentar adivinhar de quem é a cara que me olha do outro lado.
rabiscado na parede, ao lado de outros 2 gatafunhos.dou voltas e voltas, pensando no que seria de mim se as coisas não se tivessem passado assim. talvez estivesse feliz da vida, no outro lado destas paredes aonde escrevo, com tudo o que sonhei. mas o destino pregou-me uma partida, e acabei entre quatro paredes, a chorar pelo que não tenho, a gritar de raiva pelo que não posso ter, a olhar, sem esperança, pela minúscula janela que me permite ver o mundo, lá fora. dou voltas e voltas. nada mais me resta fazer. condenaram-me à morte da maneira mais horrível... |
20060110 |
sonho. hoje, no correio, recebi fotografias dum sítio fenomenal:
rabiscado na parede, ao lado de outros 0 gatafunhos.![]() ![]() ![]() ![]() vernazza, na itália, a 100km's de génova. parece-me um bom sítio para passar férias... se as pudesse gozar, claro está. se me deixassem sair daqui... gostava de lá ir. mas não sozinho. com amigos. com uma amante. daquilo que é dado ver, é um sítio belo demais para uma pessoa o gozar sozinho. mas chega de sonhar. esta cela de paredes cinzentas é a única coisa que hei-de ver até o fim dos tempos. ao menos, já tenho postais para me lembrar como é o mundo lá fora. |
20060104 |
rombo. não percebo porque me sinto assim, como se me tivessem retirado o coração com uma gadanha. sinto-me vazio desde que me disseram que o cinco passou a seis (é difícil dar pela passagem do tempo fechado nesta cela), e não percebo porquê. desde que regresei da última saída que tenho apresentado estes sintomas, e não há médico que consiga explicar a causa. sinto-me doente, não quero estar na solitária, quero saír para o parque, ver gente, ver os amigos, os amigos com quem tive a benesse de poder passar uns dias fora da prisão... os dias que me meteram doente.
rabiscado na parede, ao lado de outros 0 gatafunhos.não percebo porque me sinto assim. mas vai ser para continuar. e a cadeira eléctrica que não há meio de funcionar... |
companheiros de cela.
apenas o meu encarcerador
créditos.
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parede.
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